Análise linguística - A moça tecelãAnálise linguística da narrativa A moça tecelãA análise proposta neste artigo enfoca as características e argumentos do verbo privilegiando a posição dos sujeitos como auxílio para a interpretação da narrativa acima citada. Quando caracterizamos o verbo em ação, processo, ação-processo ou estado, automaticamente selecionamos elementos do contexto que se prendem ao processo verbal: os sujeitos, os complementos, e como ocorre em todo acontecimento, as circunstâncias também. Vejamos o que ocorre nesta narrativa: Em (*1), os verbos de processo acordar e ouvir indicam que há no texto um sujeito ora paciente, ora experimentador. O segundo verbo remete a um complemento objetivo – o sol chegando. O leitor é colocado diante de um quadro intencionalmente criado em que se contextualiza o que será enunciado. No segundo enunciado há um locativo, o tear, ligado ao verbo de ação sentar-se, o que indica a existência de uma pessoa a tecer. O verbo de processo começar aponta para um evento: Linha clara, para começar o dia. Observa-se no terceiro enunciado a locução verbal ir passando, que exige três argumentos: A1, A2 e A3, correspondendo ao que a gramática tradicional chama de sujeito, objeto direto e indireto. Existe um sujeito agente (ela), um material utilizado (delicado traço cor da luz) e um locativo (entre os fios estendidos) onde este material está sendo colocado. Em seguida, o narrador anuncia uma ocorrência simultânea por meio do verbo de ação-processo desenhar, usando uma metáfora para representar um fato da natureza: Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte. Pelo verbo de ação-processo ir tecendo e o de processo acabar na sua forma negada não acabava, sabe-se que o ato de tecer continuava. O motivo de o tapete não ter fim está explicado nos enunciados seguintes. A moça observava o ambiente (expresso por verbos de estado) e, conforme não gostava do que via (os processos nos quais os eventos ocorriam), ia tecendo as coisas como desejava (verbos de ação-processo): Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Dessa forma, a moça escolhia um tipo de fio (verbo ação), tecia sobre o tapete (verbo de ação-processo) e a natureza criava o que ela havia idealizado (ocorria outra ação). (...) escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela. Em (*2), o verbo de ação brigar liga-se a um argumento A1 (frio e vento, agentes não-animados) e a um complemento comitativo (com as folhas); o verbo de ação-processo espantar liga-se ao mesmo sujeito e a um complemento paciente (os pássaros); o verbo bastar (estado) representa algo suficiente: bastava a ação cotidiana de tecer com os fios dourados que o resultado aparecia, a ação de o sol voltar e acalmar (ação-processo) a natureza (paciente do processo).
Os verbos de ação jogando a lançadeira, batendo os grandes pentes apontam para um sujeito agente, e passava seus dias indica um
sujeito paciente. Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de linha que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer. Esses enunciados indicam, em primeiro lugar, o estado de satisfação em que a personagem vivia - faltava o que a ela? – nada. Se ela tinha fome, tecia, e aparecia um resultativo – um lindo peixe, pronto para ser comido. Observa-se o verbo lançar, um verbo de ação-processo com um sujeito agente e um complemento instrumental e, em seguida, o verbo dormir, que é o processo resultado da ação do verbo anterior. Essas ações levam à estatividade. No entanto, a sua própria ação de tecer e tecer lhe traz algo, que lhe altera o cotidiano, pelo verbo de ação interna pensar: Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou como seria bom ter um marido ao lado. No ícone (*3) surgem os verbos (não) esperar, negação de um estado, e tentar, de ação, seguidos de entremear e dar, que conferem ao sujeito a moça o papel de agente e de beneficiário da ação verbal, respectivamente. Aos poucos, a personagem vai sendo beneficiária de suas próprias ações. O último fio entremeado resulta em um sujeito agente que bate à porta e entra na vida da tecelã . Surge o desejo, não concretizado em ações, da tecelã de tecer os filhos para completar sua felicidade. Mas marido muda os planos da moça: Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Agora novos pensamentos, desejos de mudança, partem do homem que almeja novas ações a serem realizadas pela tecelã para a construção de um palácio (o resultativo do verbo de ação-processo tecer: Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. Os verbos trabalhou e tecendo referem-se ao mesmo sujeito agente e, respectivamente, são verbos de ação e ação-processo. No primeiro caso, indica a ação da moça e, no segundo, a ação e o processo que resultou da ação: portas e tetos representam um complemento resultativo. O verbo trabalhar, acompanhado da expressão dias e dias, semanas e meses, muda novamente o rumo da história : Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Há verbos de processo e estado, cair, chegar e ter, os dois primeiros expressando fenômeno da natureza e o outro, uma situação que a tecelã vivia; de ação, chamar, que, por meio do ato de tecer, ela chamava o sol; de ação-processo, arrematar, porque se o desenho fica terminado, o dia também fica. A moça continuava a tecer o castelo, segundo as ordens do marido, o que provocou o processo de entristecer-se. Após o resultado das ações da tecelã (o resultativo é o castelo pronto), surgem novas ordens (*5): - Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos! Com tanto trabalho volta à insatisfação a vida da tecelã. Apesar de verbos de ação, ação-processo e volição: tecia, fazia, enchendo, queria, verifica-se o excesso de trabalho, isto é, uma tensão que gera uma expectativa do que pode acontecer uma mudança de situação, de estado em que a tecelã se encontra. E pela primeira vez pensou como seria bom estar sozinha de novo. Só esperou anoitecer. (*6) Novamente surge o verbo de ação pensar, que explicita pelo complemento o desejo de realizar algo novo: (...) desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela. (*7) Agora ocorre um processo inverso: a desconstrução de tudo o que foi feito – todas as ações praticadas devem ser desfeitas. Destecer exige A1 (a tecelã) e A2, complemento resultativo (criados, palácio etc). Conter é um verbo de estado, com sujeito inanimado (A1) e complemento Objetivo (A2). Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando devagar entre os fios delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte. No fim do conto, ouvisse representa o processo, com um sujeito experimentador; escolher é uma ação com sujeito agente; passar indica ação-processo, que exige três argumentos: A1 (a tecelã), A2 (delicado traço dourado) e A3 (locativo = entre os fios); repetir é um verbo de ação, com um A1, sujeito não-humano que se torna agente. Assim, tudo volta ao ponto inicial em que tudo começou. |
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