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Falando de 'sujeito'

A visão da gramática

Na visão da gramática tradicional, dentro das frases pode-se estudar toda a gramática de uma língua. Nesta visão, convencionou-se que os termos da oração fossem classificados em:
essenciais, integrantes e acessórios.
Os essenciais: sujeito, predicado.
Os integrantes: complemento verbal, complemento nominal, agente da voz passiva.
Os acessórios: adjunto adverbial, adjunto adnominal, aposto.
Ao lado desses, estaria o vocativo, que não pertence nem ao sujeito nem ao predicado.

nota:
A questão do que seria 'integrante' e 'acessório' também é discutida. Acrescenta-se que alguns segmentos gramaticais admitem outras classificações. Entre eles:

  • Sujeito, predicado, vocativo.
  • Termos associados ao verbo:
    (objeto direto, objeto indireto, agente da passiva e adjunto adverbial)
  • Termos associados ao nome:
    (predicativo do sujeito, predicativo do objeto, complemento nominal, adjunto adnominal e aposto).

Sujeito e predicado – origem em Platão (429-347 a.C.)

A dicotomia sujeito e predicado tem sua origem no grego: na filosofia e lógica gregas.
Aristóteles (384-322 a.C) adota em referência ao sujeito e ao predicado, respectivamente, os termos ônoma (nome) e rhêma (verbo). Portanto, essas noções, que tiveram suas bases nas reflexões filosóficas dos gregos antigos, sob a forma de premissas e conclusões, deram origem ao pensamento do homem ocidental, que se acostumou a relacionar dados conhecidos e deles tirar deduções.
Foram os alexandrinos, que continuaram o trabalho dos estóicos, que acabaram por codificar em termos mais ou menos definitivos o que se conhece como gramática “tradicional” grega. Foram eles que estabeleceram os “cânones”, paradigmas, de flexão.

Foi assim e sempre será?
- Não. Há outros conceitos para análise e estudo da frase, outros pontos de vista, mas, a gramática não mudou - é a mesma.

Como estudar a gramática?

A melhor maneira é estudá-la no nível do seu uso: compreendendo o significado das palavras, sua colocação, a expressão correta e verdadeira daquilo que se pretende enunciar. As palavras não estão jogadas numa frase – elas obedecem uma ordem estabelecida pela língua, há uma hierarquia entre elas, sem a qual, o enunciado não teria sentido. O verbo é uma peça muito importante para se identificar o 'sujeito' e o 'predicado'.

Compreendendo o 'sujeito'

Geralmente, o verbo estabelece uma conexão direta com o sujeito e o predicado, do qual, ele sempre é o núcleo. Pode ocorrer que apenas ele encerre todo o sentido da frase, não necessitando de sujeito nem de complemento. Neste caso, a gramática diz que ocorreu uma oração sem sujeito:

Amanheceu.
Chove.

Os vários tipos de sujeito

Sujeito determinado

Quando o sujeito está claro, expresso, ele pode ser formado de uma palavra, ou sujeito simples:

Lara vende roupas.

Mais de uma palavra, ou sujeito composto:

Lara e Luana vendem roupas.

Algumas vezes, o sujeito é determinado por outras fontes, por exemplo, pela terminação verbal. Neste caso, a desinência verbal é quem vai apontar para o sujeito (eu). Então, diz-se que o sujeito está oculto, elíptico, porém, está claro, facilmente determinável.

Comprei um sorvete.

Também é considerado sujeito simples, quando houver ou verbo TD (transitivo direto) ou TDI (transitivo indireto) acompanhado da partícula apassivadora 'se', numa frase em que possa ser transformada na voz passiva:

Mudaram-se as regras do jogo. (= As regras do jogo foram mudadas.)
Aluga-se casa na praia. (= Casa na praia é alugada.)
Compram-se jornais. (= Jornais são comprados.)
Começaram as aulas. (= As aulas começaram. (v. processo, sujeito paciente não-animado)
Compraram as lojas. (= As lojas foram compradas.)
Todas as frases acima permitiram a identificação do sujeito quando transformadas em voz passiva. Todas com sujeito simples.

Sujeito indeterminado

Neste caso, a terminação verbal é insuficiente para determinar o sujeito. Por exemplo, uma frase com o verbo na 3ª pessoa do plural, sem que haja uma referenciação antes ou depois, fica impossível determinar o sujeito:

Levaram 3 mil em dinheiro e duas câmeras digitais. (Quem levou? - Não se sabe.)

Outros casos de indeterminação do sujeito: verbos na 3ª pessoa do singular acompanhados da partícula se (qualquer tipo de verbo excetuando-se os transitivos diretos:
Com verbo intransitivo (VI) - 3ª pessoa singular mais a partícula se:

Vive-se bem no interior do país. Quem vive? - Não se sabe.
Estuda-se muito nesta escola. Quem estuda? - Não se sabe.

Com verbo de ligação (VL) - 3ª pessoa do singular mais a partícula se:

Era-se feliz e não sabia. Quem era feliz? - Não se sabe.
Esta-se preocupado. Quem está? - Não se sabe.

Com verbo transitivo indireto(VTDI) - 3ª pessoa do singular mais partícula se:

Precisa-se de costureiras. Quem precisa? - Não se sabe.
Necessita-se de encanadores. Quem necessita? - Não se sabe.

Mais exemplos

  • 1. Com sujeitos indeterminados:

a) Verbo na 3ª pes. plural, sem referenciação antes ou depois:
Continuaram a rebelião, não se sabe porquê.
Levaram tudo, ela foi literalmente roubada.
Roubaram a minha pasta.
Mataram dois porcos.
Gritaram o nome do senador.
Esqueceram-se de mim.
Disseram que amanhã não haverá aula.
Resolveram todas as questões em meia hora.
Trataram-no de árabe.

b) Verbo (VTDI) na 3ª pes. singular + 'se' (índ. indet. sujeito):
Precisa-se de ajuda. (frase na voz ativa ) Precisa-se de empregados.
Falou-se de cidadania o tempo todo.
Crê-se em Deus.
Necessita-se de melhores oportunidades.
Vende-se a baixo custo.(sentido trans.indireto)
Não se gosta de quem fala a verdade.

c) Verbo ligação (VL) na 3ª pes. sing. + 'se' ( índ. indet. sujeito):
Não se é ministro, se está ministro.
Aqui se é feliz.
Não se vive sem água.

d) Verbo intransitivo (VI) na 3ª pes. sing. + 'se' (índ. indet. sujeito):
Trabalha-se com máquinas pesadas.
Vive-se bem em Curitiba.
Não se entrava naquela casa.

  • 2. Com sujeito elíptico ou oculto

É um tipo de sujeito determinado, mas que só é identificável pelo contexto ou pela terminação verbal:
Nunca me esqueci de você. (elíptico: eu)
Queixas em vão. (elíptico: tu)
Quando jovem, foi cortejado de muitas mulheres. (elíptico: ele)
A cada meia hora sorria um sorriso triste. (elíptico: ele/ ela)
Irei ao congresso em julho. (elíptico: eu)

  • 3. Com sujeito inexistente ou oração sem sujeito:

Era ao anoitecer. (estado ambiental)
Chove no meu coração. (uso metafórico de 'chove')
Está fazendo um calor horrível. (fenômeno da natureza)
Há uma tristeza no seu olhar. (haver = existir)
Deve haver muitas frutas na geladeira ( locução verbal)
Estava quente.
Fazia calor.
Não chovia mais.

Ver Sujeitos

Saiba também:
Com o verbo haver, no sentido de 'ter' gera uma oração sem sujeito e o complemento é OD (objeto direto):
Há leões na África. (leões = OD) (na África = adj.adverbial)

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