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Uma lição de gramática contextualizada

Há inúmeras opções de estudo num texto: os mecanismos de coesão e coerência, os tipos de sujeitos, de complementos, enfim, é possível comentar gramática a partir de um texto. Neste artigo apresentamos uma análise linguística a partir dos verbos e seus argumentos. Desta forma, podemos reconhecer o sujeito e os complementos verbais. Para não interromper a leitura, nos utilizaremos de links, que levarão aos comentários, os quais desejamos fazer.

As aventuras de Tom Sawyer

Cerca das dez e meia o sino rachado da pequena igreja começou a repicar e, em seguida, os fiéis vieram chegando para o sermão matinal. As crianças da escola paroquial espalharam-se pelo salão e ocuparam os bancos com os pais. Tom, Sid e Mary sentaram-se com Tia Polly; Tom, o mais longe possível da janela aberta, e das sedutoras cenas que ocorriam lá fora. Reunida toda a congregação, o pastor anunciou o hino e o leu com deleite. Em seguida, rezou uma boa e generosa oração.

Rezou pela igreja e as criancinhas da igreja. Pelas outras igrejas da aldeia, pela aldeia mesma, pelo Condado, pelo Estado, pelos Estados Unidos, pelas igrejas dos Estados Unidos, pelos deputados, pelo Presidente da República, pelos funcionários públicos, pelos pobres marinheiros entregues à fúria dos mares tempestuosos, pelos milhões de oprimidos, pelos pagãos das ilhas distantes. Terminou com uma súplica para que suas palavras fossem semente em terra fértil, frutificando e se transformando em farta e abençoada colheita. Amém. (ver gramática contextualizada - - foco: apresentação cenário - verbos)

Tom não apreciou a oração; apenas a suportou, se é que chegou a tanto. Em meio ao discurso, uma mosca pousou no encosto do banco à sua frente, e lhe torturou o espírito, esfregando calmamente as duas patas dianteiras, uma contra a outra. A mosca ocupava-se tranqüilamente de seu asseio corporal, como se soubesse estar em perfeita segurança. E de fato estava: por mais que sentisse vontade de agarrá-la, Tom não o faria enquanto durasse a oração, pois temia incorrer num grande pecado.
( Gramática contextualizada - foco em sujeito e verbos )

Mas ao ouvir a última frase da prece, a mão do menino começou a curvar-se e avançar. Dito o amém, a mosca já era prisioneira. A tia percebeu a operação e o brigou a soltá-la.
O pastor anunciou o tema do sermão e se pôs a arrastá-lo monotonamente, fazendo cochilar os fiéis. Tom contava as páginas do sermão. Depois do serviço religioso sempre sabia quantas páginas tinham sido lidas, e isso era tudo que conhecia do sermão. De repente, lembrou-se de um tesouro que possuía e o tirou do bolso.
Estudando as transformações

Era um grande besouro preto, guardado numa caixa de espoletas. O primeiro movimento do besouro foi ferroá-lo no dedo. O garoto deu-lhe um peteleco e o besouro ficou a se debater no assoalho, de pernas para cima, sem poder se virar.

Um cachorro vagabundo, que aparecera tristonho por ali, à procura de novidade, viu o besouro e empinou a cauda. Examinou-o, farejou-o de prudente distância, andou em sua volta, tomou coragem e farejou-o mais de perto. Tentou abocanhar a presa e falhou. Tentou de novo e tornou a falhar. Gostou da brincadeira, deitou-se, prendeu o besouro entre as patas, cansou-se. Abaixou a cabeça e, inesperadamente, o besouro deu-lhe uma ferroada no focinho. Um ganido agudo, o cachorro sacudiu a cabeça e o besouro foi cair a alguns metros de distância, mais uma vez de pernas para o ar. Os espectadores mais próximos não puderam conter risadinhas abafadas, e vários rostos se esconderam atrás de lenços e leques. Tom sentia-se plenamente feliz.

O cachorro, apesar do ar de bobo, não se conformou com a ofensa e desejava se vingar. Voltou à defensiva, cauteloso, colocando as patas dianteiras a menos de um palmo de distância do inimigo, dando bocanhadas cada vez mais próximas. Depois de algum tempo, cansou-se de novo. Tentou caçar uma mosca, farejou uma formiga, bocejou, suspirou, esqueceu-se inteiramente do besouro e se sentou exatamente em cima dele! Ouviu-se um uivo selvagem e viu-se o cachorro atravessar a nave, passar junto do altar, continuar ganindo até a porta. Sua agonia aumentava à medida que corria, e agora se movia com pasmosa velocidade. Finalmente mudou de rumo e pulou no colo de seu dono. Este o jogou pela janela e os uivos de dor foram morrendo lentamente, até se perderem na distância. Nessa altura, a igreja inteira sufocava o riso, e o sermão estava irremediavelmente prejudicado.

Foi um alívio para todos quando a provação terminou e o pastor deu a bênção final. Tom foi para casa bastante contente. Sempre havia um certo encanto no serviço divino, desde que nele ocorressem novidades. Só um incidente o desagradara: o fato do cachorro ter levado consigo o seu besouro.
Estudando as novas ações e acomodações

TWAIN, Mark. Aventuras de Tom Sawyer. Trad. Carlos Heitor Cony. Rio de Janeiro: Ediouro, 1970. Coleção Elefante.(p.25-26).

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