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Relações semânticas entre palavra e sentença


Gloria Galli

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Quando se escreve, faz-se referências. O significado das sentenças é percebido pelo significado das palavras e também pela estrutura gramatical. Os referentes são marcados nas frases pelos substantivos, as qualidades e especificações pelos adjetivos, os acontecimentos na varredura das ações, processos e estados pelos verbos, as circunstâncias, pelos advérbios e, nesses conjuntos, de modo geral, os enunciados vão se formando. E as estruturas gramaticais dão dinamicidade aos significados junto às noções, principalmente, de espaço, tempo e pessoa.

Há expressões que levam ao sentido restrito dos termos; outras, trazem afirmações completa ou parcialmente subentendidas. Essa relação complexa entre palavras e sentença vai levar à noção de linguagem denotativa e linguagem conotativa. Por exemplo, o trecho abaixo do poeta João Cabral de Melo Neto:

Tecendo a manhã

“Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos. “[...]

João Cabral de Melo Neto. Tecendo a manhã.
Disponível em: http://www.jornaldepoesia.jor.br/joao02.html. Acesso 24/01/2017

Pensando em uma linguagem denotativa, concordamos que é quase assim que ocorre no universo dos galos; porém, galos não tecem manhãs, mas compõem as manhãs. Linguagem é bem isso. É ir comparando as semelhanças da vida, usando termos que atribuem quase as mesmas ações; necessariamente nao é preciso conferir se a ação pertence verdadeiramente àquele sujeito ou não. Linguagem é atribuir qualidades e ações à noções semelhantes.

Se é usada para representar diretamente as entidades do mundo, é uma linguagem denotativa; a conotativa assemelha-se ao objeto referenciado. Já nos primeiros versos do poema de Cabral, sentimos que as palavras se endereçam mais aos homens do que aos galos: ninguém sobrevive sozinho — os homens precisam uns dos outros. Poderíamos reescrever este trecho endereçando-o aos homens da seguinte maneira:

“Um homem sozinho não tece sua vida:
ele precisará sempre de outros homens.
De um que apanhe o que ele fez
e o lance a outro; de um outro homem
que apanhe esse novo feito
e o lance a outro; e de outros homens(
que com muitos outros
homens se cruzem
os fios de sol de seus
feitos de homem,
para que a
vida, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os
homens*. “[...]

O autor usou a organização dos galos chamando a atenção dos homens para que saibam que eles dependem uns dos outros. Nesse caso, consideramos uma linguagem conotativa. Mas, ao reescrever o trecho, usando diretamente o termo homem, criamos novamente uma linguagem denotativa.

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