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A Gramática Tradicional e os fatos históricos


Gloria Galli

Categorias: história da gramática | linguística |

A evolução do logos*

A gramática ocidental tradicional tem suas origens na gramática grega. Portanto, o processo de instituição como disciplina gramatical fundamenta-se no pensamento grego, na cultura helenística. Os gregos, mesmo sem a noção de uma teoria gramatical tinham uma profunda preocupação com a linguagem, o que acabou sendo convencionado como o logos (presente nos poemas homéricos) - termo fortemente ligado à filosofia. Seguem alguns conceitos sobre esse assunto.

Embora essas noções estivessem muito presas à filosofia, os gregos reconheciam a realidade sonora da linguagem. Na Ilíada, de Homero, o jogo entre o dizer e o fazer, privilegiava a retórica, a importância do dizer. Dessas tramas nasce a dicotomia - engano/verdade, confirmando assim, a importância da palavra. No poema lírico Píndaro inicia-se uma autonomia do dizer, e o logos passa a ser um código do bem agir, o dito dos heróis.

Nos primeiros textos das tragédias gregas (Heráclito e Parmênides) surge um outro conceito para o logos: o noûs*, ou seja, a inteligência no que se diz ou no que se faz, pois, sem o que, as palavras podem não representar nada, o dizer fica vazio.

Ao lado dessa linguagem poética que se seguimentava, a formação da polis grega foi-se desenvolvendo um outro tipo de linguagem - a retórica, a linguagem dos oradores. Nessa linguagem já se observa uma certa técnica um tanto formal, um tanto normativa. Portanto, já pode-se depreender duas linguagens; a poética e a retórica. Nesse contexto nasce o discurso filosófico. Nessa fase, observa-se, a importância do uso da palavra. E, confirmando o interesse e importância da palavra, os gregos passam a uma nova fase: a do engano e verdade.

Em Heráclito já se distingue daquilo que mais tarde Platão considera como partes do discurso: ónoma e rhêma, ou seja, o nome, a coisa e o que se diz dele. Até Empédocles (490-435 a.C.) não havia uma distinção entre o ser e a linguagem. Neste momento, há uma separação dessas duas entidades, o que significa um passo para o estabelecimento do conceito futuro de gramática. Portanto, o logos passa a ficar separado da coisa. Já se percebe que um mesmo nome pode representar duas coisas; descobre-se, pois, a teoria dos contrários. Essa discussão antiga, na verdade, girava em torno do ser, da coisa e do argumento dela. Ao argumento é que esses antigos filósofos consideravam o logos.

Uma outra discussão, muito antiga, diz respeito à natureza do nome. Em torno disso, criou-se a dicotomia: phy'sei ou nómoi? Havia um confronto entre os gregos, principalmente os sofistas, sobre a natureza do nome: o primeiro nome significando que ele é a imagem natural das coisas, a essência natural de um fenômeno, sendo portanto, permanente e inviolável; e o segundo, o nome é convencional, ou seja, é imposto por vontade dos homens ou adquirido por costume, portanto, suscetível de ser transgredido. Dessa forma, para os gregos, tudo que existia estava sob esta questão: tudo que existe é natural ou está sob a convenção da nomos? Os sofistas e a linguagem

Um passo importante no processo de evolução da linguagem ocorre com o surgimento dos sofistas. Motivados pela preocupação de formar o homem político, surge uma nova maneira de tratar a linguagem - a arte de persuadir, a arte de falar. Os sofistas eram uma espécie de profissionais da linguagem, ou seja, da arte de falar. Surgiram na segunda metade do século V a.C.:
Para Aristóteles, a sofística é uma sabedoria aparente, sem realidade, e o sofista, um homem que tira proveito pecuniário de uma sabedoria aparente, não real. (in_Neves. p.36)

Surge com essa classe de filósofos, a retórica, o valor dos argumentos - são eles que vão recriar a imagem dos fatos. A discussão antiga sobre como teriam surgido o nome das coisas, agora posiciona-se a favor dos valores subjetivos, portanto, a denominação das coisas é arbitrária. Nessa concepção o verdadeiro é ignorado, assim, a linguagem fica fechada em si mesma.

fonte: NEVES, M.H.M. A vertente grega da gramática tradicional. Editora Hucitec:São Paulo.1987

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