Língua Portuguesa em Uso > Velha História. Mário Quintana – uma lição de texto

Velha História. Mário Quintana – uma lição de texto

Gloria Galli


Categorias: interpretação de textos | Mario Quintana | narrativas | atividades | textos |

tema QUEM AMA NÃO CASTRA A LIBERDADE

"Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. Até que apanhou um peixinho! Mas o peixinho era tão pequenininho e inocente, e tinha um azulado tão indescritível nas escamas, que o homem ficou com pena. E retirou cuidadosamente o anzol e pincelou com iodo a garganta do coitadinho. Depois guardou-o no bolso traseiro das calças, para que o animalzinho sarasse no quente. E desde então, ficaram inseparáveis. Aonde o homem ia, o peixinho o acompanhava, a trote, que nem um cachorrinho. Pelas calçadas. Pelos elevadores. Pelo café. Como era tocante vê-los no "17"! o homem, grave, de preto, com uma das mãos segurando a xícara de fumegante moca, com a outra lendo o jornal, com a outra fumando, com a outra cuidando do peixinho, enquanto este, silencioso e levemente melancólico, tomava laranjada por um canudinho especial... Ora, um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas. E disse o homem ao peixinho: "Não, não me assiste o direito de te guardar comigo. Por que roubar-te por mais tempo ao carinho do teu pai, da tua mãe, dos teus irmãozinhos, da tua tia solteira? Não, não e não! Volta para o seio da tua família. E viva eu cá na terra sempre triste!...Dito isso, verteu copioso pranto e, desviando o rosto, atirou o peixinho n’água. E a água fez redemoinho, que foi depois serenando, serenando... até que o peixinho morreu afogado..."

fonte: QUINTANA, M. de M. 1976. Quintanares. 4. ed. Porto Alegre, Globo, p.105

Compreendendo textos: Enunciado é o que se diz ou o que se escreve. Pode-se dizer que é uma sequência de valores referenciais localizados num conjunto de coordenadas que inclui o sujeito, o tempo e o espaço, numa relação intersubjetiva, ou seja, entre sujeitos.

Compreendendo as narrativas:
Observamos que o texto apresentado prende uma ideia central no fio dos enunciados, quer dizer, no desenrolar dos acontecimentos, ocorrendo fatos em sequência temporal, num jogo de causas e efeitos, com verbos predominantemente nos tempos passados. É possível identificar também momentos de acomodação marcados por verbos de estado, seguidos de novas ações. Em um dado momento apresenta um ponto máximo de conflito e, logo depois, um desfecho. Essas características são típicas dos textos narrativos.

Compreendendo o texto apresentado:
A expressão Era uma vez... dá-nos pistas de uma narrativa histórica, o que significa um narrador conhecedor dos fatos, porém, distante deles. No texto apresentado, os fatos são narrados, na maior parte, com verbos nos tempos do pretérito (passado), predominando o modo indicativo, que expressa uma modalidade da ordem da certeza:
pretérito imperfeito (estava/ era/ tinha/ ia/ acompanhava/ era/ tomava/ passeavam);
e pretérito perfeito (apanhou/ ficou/ retirou/ pincelou/ guardou/ ficaram/ encheram/ disse/ verteu/ atirou/ fez/ morreu).

Todo texto cumpre uma finalidade, que é convencer o leitor sobre algo, informar, explicar, descrever, ironizar etc. – depende da escolha do autor. Para o estudo de qualquer texto, é preciso, de início, saber a diferença entre autor, narrador, narratário e leitor.

Autor é o ser de carne e osso que faz a produção textual: Mário Quintana, Machado de Assis, Lima Barreto, Lya Luft etc.
Narrador é a voz que soa no texto: um personagem de papel, o qual não se confunde com o autor.
Narratário é quem o narrador supõe que seja o leitor, é também um personagem de papel.
Leitor é quem toma a leitura do texto, é para ele que o autor escreve, é um personagem de carne e osso.

Isso posto, voltamos ao texto numerando os enunciados que desejamos comentar:
(1) «Era uma vez um homem que estava pescando, Maria.»
Nessa frase, temos a voz do narrador e, Maria, a quem ele dirige a palavra, corresponde ao narratário. É com Maria que o narrador dialoga.

(2) «Até que apanhou um peixinho!»
Em (2), o verbo apanhar comanda uma ação simples apanhou um peixinho; porém, o termo até, que corresponde a um advérbio de tempo, amplia o sentido do verbo apanhar. A expressão adverbial até que indica que houve demora para apanhar o peixe (fato comum entre os pescadores); e que, além disso, não era um peixe, e sim, um peixinho. Portanto, a expressão adverbial deu um sentido especial à frase, modalizou a ação efetuada.

(3) «Mas o peixinho era tão pequenininho e inocente, e tinha um azulado tão indescritível nas escamas, que o homem ficou com pena.»
Em (3), a conjunção mas e o advérbio tão acrescentam outras ideias ao enunciado anterior: eis um peixinho, que era muito pequenininho e inocente, e, também, era muito bonito, ou seja, «tinha um azulado tão indescritível nas escamas»!. É importante observar o grau de intensidade provocado pelo advérbio tão e quanto essa categoria de palavras é importante para a composição dos significados.

(3a) ...« que o homem ficou com pena»
O homem ficou com pena por causa de tudo aquilo que foi dito em (3), o que significa:
(...) era um peixinho; (...) era tão pequenininho; (...) era inocente; (...) e era tão lindo! Por isso, o homem ficou com pena. Nesse ponto, a narrativa tem uma certa acomodação, marcada pelo verbo de estado ficar, formando a expressão ficou com pena. Em seguida, o narrador retoma os acontecimentos por meio de enunciados com verbos de ação-processo retirou e pincelou:

(4) ...«E retirou cuidadosamente o anzol e pincelou com iodo a garganta do coitadinho.»
Anzol é um objeto que finca e prende o peixe; no entanto, se é retirado com cuidado, o peixe fica livre novamente. Essa ação é expressa em (4) pelo advérbio de modo cuidadosamente, o que permanece coerente com (3a) - ficou com pena. São os cuidados dispensados pelo homem em favor do peixinho.

(5) «Depois guardou-o no bolso traseiro das calças, para que o animalzinho sarasse no quente.»
O enunciado (5) completa as ações de (4) com a expressão verbal guardou-o no bolso. E justifica a ação, colocando o verbo sarar no modo subjuntivo (sarasse), o que expressa uma modalidade da ordem da possibilidade; usa o termo animalzinho indicando a fragilidade do ser, e termina com a locução adverbial no quente, para indicar a intenção de proteger o ser em questão, guardando-o consigo.

(6) «E desde então, ficaram inseparáveis. Aonde o homem ia, o peixinho o acompanhava, a trote, que nem um cachorrinho. Pelas calçadas. Pelos elevadores. Pelo café.»
O enunciado (6) mostra mais um momento de acomodação entre as ações da narrativa.

(7) «Como era tocante vê-los no "17"! o homem, grave, de preto, com uma das mãos segurando a xícara de fumegante moca, com a outra lendo o jornal, com a outra fumando, com a outra cuidando do peixinho, enquanto este, silencioso e levemente melancólico, tomava laranjada por um canudinho especial..»
Em (7), a oração exclamativa guarda uma ironia, que, a princípio, é revelada pelo excesso de mãos do homem - 4 mãos: uma mão toma café, outra no jornal, outra no cigarro e outra cuida do peixinho. Isso coloca em evidência a desigualdade entre os personagens: o primeiro tem tantos meios para atingir suas vontades; o segundo, para um suco de laranja, precisa de um canudinho especial, ou seja, um meio artificial. Talvez isso justifique a expressão linguística ...em silêncio, levemente melancólico.

(8) «Ora, um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado»
O enunciado (8) expressa nova acomodação dos acontecimentos, situação iniciada pela interjeição ora, seguida da descrição de um novo cenário, parecido com o do início da história, o que dá a ideia de um movimento lento no processo histórico.

(9) «E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas. E disse o homem ao peixinho: "Não, não me assiste o direito de te guardar comigo.»
Nesse enunciado constatamos uma tomada de consciência do personagem, o homem, expressa não só pela marca linguística lágrimas como também pela asserção negativa de não ter o direito de guardar o peixe com ele.

(10) «Por que roubar-te por mais tempo ao carinho do teu pai, da tua mãe, dos teus irmãozinhos, da tua tia solteira? Não, não e não! Volta para o seio da tua família...»
O homem, num fluxo de consciência, simulando uma pergunta ao peixinho, arrepende-se de tê-lo tirado do seu ambiente. E decide, mesmo hesitante, devolvê-lo ao seu habitat. Este enunciado representa o clímax, o conflito máximo. A penosa ação de devolvê-lo é expressa pela enunciado:
(11) E viva eu cá na terra sempre triste!

O desfecho da narrativa ocorre no enunciado abaixo, que, contrariando o final feliz das narrativas históricas, apresenta um desfecho infeliz:
(12) «Dito isso, verteu copioso pranto e, desviando o rosto, atirou o peixinho n’água. E a água fez redemoinho, que foi depois serenando, serenando... até que o peixinho morreu afogado..."
.....
À maneira das fábulas poder-se-ia criar uma moral da história:
«QUEM AMA NÃO CASTRA A LIBERDADE»

Comentários

revisados

Gedini
2013-08-05
Quiasmo

Participe

Faça login para receber nossa newsletter ou enviar dúvidas