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Romantismo e o panorama histórico


Gloria Galli

Categorias: literatura | literatura portuguesa | romantismo | literatura brasileira |

Romantismo

Período literário, ou seja, movimento estético cultural iniciado na Inglaterra e Alemanha, fins do século XVIII, que se estende para França, Itália e mais tarde para toda a Europa e se prolonga até meados do século XIX. Interessa-nos, neste momento, abordar o que significou esse movimento no Brasil e em Portugal e como isso ocorreu.

Panorama histórico

A Europa passava pela crise pós Revolução Francesa. O poder da monarquia se aniquilava e a burguesia se estabilizava, o capitalismo abria caminho. O povo ansiava pelo emblema "Liberdade, Igualdade, Fraternidade" gerado pelos ideais napoleônicos, naquele momento, vitoriosos. O desejo generalizado pelos ideais de liberdade, unido aos efeitos da Revolução Industrial, despertou no povo uma frustração pelo novo poder que surgia: a posse do dinheiro. Parecia ao povo que os valores morais se perdiam.
O que surge nas, então, produções literárias em Portugal? - Saudade dos heróis! Reflexões sobre o sentimento! No entanto, tanto politicamente quanto na arte os ideias românticos tendiam ao caráter inovador e subversivo.

Em Portugal, as produções escritas tematizam seus heróis medievais ou sonham com um mundo ideal. O marco aceito como o início do Romantismo em Portugal é com a poesia narrativa de Almeida Garret, Camões, em 1825.

Ergui a voz, clamei contra a vergonha
Que o nome português assim manchava,
Esconjurei as sombras indignadas
Dos heróis fundadores de um império
Que tão bastardos netos destruíram.
Em vão clamei; as minhas verdades duras
Mole ouvido os tiranos ofenderam:
Puniu desterro injusto a minha audácia.
(Camões, canto quarto, XII)

No Brasil, o tema procura o índio, idealizado como herói, o negro, as paisagens, a pátria etc. Lembrando que a pátria nesse momento passava por uma fase importantíssima - o Brasil sediou a capital de Portugal nessa época, o Rio de Janeiro. D. João VI veio com toda a corte para o Brasil em 1.808. A obra que marca o início desse movimento é Suspiros poéticos e saudades, de Gonçalves de Magalhães, em 1836:

Ele sonha... Alto moço se lhe antolha
De belo e santo aspecto, parecido
Com uma imagem que vira atada a um tronco,
E de setas o corpo traspassado,
Num altar desse templo, onde estivera,
E que tanto na mente lhe ficara,
— "Vem!" lhe diz ele e ambos vão pelos ares.
Mais rápidos que o raio luminoso
Vibrado pelo sol no veloz giro,
E vão pousar no alcantilado monte,
Que curvado domina a Guanabara.
(Suspiros poéticos e saudades. Gonçalves de Magalhães)

Conhecemos três fases importantes na poesia romântica:

"Em pé, no meio do espaço que formava a grande abóbada de árvores, encostado a um velho tronco decepado pelo raio, via-se um índio na flor da idade.
Uma simples túnica de algodão, a que os indígenas chamavam aimará, apertada à cintura por uma faixa de penas escarlates, caía-lhe dos ombros até ao meio da perna, e desenhava o talhe delgado e esbelto como um junco selvagem."
... (José de Alencar)

"Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente." ... (Álvares de Azevedo)

"Oh! bendito o que semeia
Livros... livros a mão cheia... E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe - que faz a palma, É chuva - que faz o mar."
... (Castro Alves)

O Romantismo consolida-se em nossa literatura com Primeiros Cantos (1846), de Gonçalves Dias, e O Guarani (1857), de José de Alencar (na prosa).

Brasil e Portugal

Em Portugal, a Revolução Constitucionalista do Porto, em 1820, esquentou o ideial o romântico tanto quanto, no Brasil, o processo da Independência, em 1822. O pensamento que contrapõe-se ao movimento anterior, ou seja, a arte clássica caracteriza-se por:

"Minh’alma é como um deserto
Por onde romeiro incerto
Procura uma sombra em vão;
É como a ilha maldita Que sobre as vagas palpita
Queimada por um vulcão!
... (Fagundes Varela)

"Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba;
Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros." ... (José de Alencar)

[…] É para mim uma das coisas mais admiráveis que tenho visto nesta terra, o caráter desse índio. Desde o primeiro dia que aqui entrou, salvando minha filha, a sua vida tem sido um só ato de abnegação e heroísmo. Crede-me, Álvaro, é um cavalheiro português no corpo de um selvagem!
...(O Guarani, de José de Alencar)

Em Portugal, os escritores enaltecem o herói medieval:

"O ruído abafado e bem distinto do mover dos dois exércitos vai-se gradualmente confundindo num som único, ao passo que o chão intermédio se embebe debaixo dos pés dos cavalos. Essa distância entre as duas muralhas de ferro estreita-se, estreita-se! É apenas uma faixa tortuosa lançada entre as duas nuvens de pó. Desapareceu!" ... (Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano)

No romance O Guarani, de José de Alencar, o bem e o mal se confrontam. "Ceci" representa o lado bom e provoca sentiment os elevados e puros; "Isabel" é o demônio, representa a terra, provoca sensualidade.

"Oh! Não maldigam o mancebo exausto
Que nas orgias gastou o peito insano,
Que foi ao lupanar pedir um leito
Onde a sede febril lhe adormecesse!
Se ele poeta nodoou seus lábios
É que fervia um coração de fogo"
... (Álvares de Azevedo)

Ah! vem, pálida virgem, se tens pena
De quem morre por ti, e morre amando,
Dá vida em teu alento à minha vida,
Une nos lábios meus minh’alma à tua!
... (Álvares de Azevedo)

Ó, minha amante, minha doce virgem,
Eu não te profanei, e dormes pura:
No sono do mistério, qual na vida.
Podes sonhasr apenas na ventura." ... (Álvares de Azevedo)

"Moreninha, Moreninha
Tu és do campo a rainha
Tu és senhora de mim;
Tu matas todos d’amores
Faceira, vendendo flores
Que colhes do meu jardim." ...(Casimiro de Abreu)

[..] Era uma noite - eu dormia
E nos meus sonhos revia
As ilusões que sonhei!
E no meu lado senti...
Meu Deus por que não morri?
Por que no sono acordei?
... (Álvares de Azevedo)

"Meu Deus! eu chorei tanto no exílio!
Tanta dor me cortou a voz sentida,
Que agora neste gozo de proscrito
Chora minh’alma e me sucumbe a vida!" ... (Casimiro de Abreu)

“Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.”
... (Augusto dos Anjos)

"Deus me livre de debater matéria tantas vezes disputadas, tantas vezes exaurida pelos que sabem a ciência do mundo e pelos que sabem a ciência do céu! Eu, por minha parte, fraco argumentador, só tenho pensado no celibato à luz do sentimento e sob a influência da impressão singular que desde verdes anos fez em mim a idéia da irremediável solidão da alma a que a igreja condenou os seus ministros, espécie de amputação espiritual, em que para o sacerdote morre a esperança de completar a sua existência na terra." ... (Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano)

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